25 de Abril de 2008

a senha da Revolução

O dia 25 de Abril de 1974 está indissociavelmente ligado à canção ‘E depois do adeus’, vencedora nesse ano do Festival da Canção e à ‘Grândola, vila morena’ do José Afonso. Acontece que, mesmo nos poucos anos, em termos históricos, que nos separam dessa madrugada de Abril, a verdade é que este facto (como, aliás, muitos outros...) foi sendo paulatinamente deturpado (a favor sabe-se lá de quem e porquê...), de forma a que, hoje, meias verdades passem a ser verdades por inteiro...
Nos preparativos do golpe, o estratega Otelo Saraiva de Carvalho estabeleceu contacto, com pessoa próxima e ligada à actividade radiofónica para que a senha fosse emitida na madrugada aprazada. Tudo parecia resolvido, não fora verificar-se que, a pretensão de fazer ouvir a senha de norte a sul do país nunca poderia ser naquela emissora que, de potência reduzida, apenas estendia a sua audição à Grande Lisboa!... A questão ficou resolvida com mais uns contactos e, desta feita, a senha seria emitida aos microfones da Rádio Renascença, essa sim, com cobertura nacional.
Sobrava apenas um pequeno percalço: Otelo tinha aceitado a sugestão da canção do Paulo de Carvalho, nessa emissora de Lisboa, que facilmente a poderia encaixar, sem suspeitas, entre o António Calvário, a Simone ou o Artur Garcia, mas na Rádio Renascença, Otelo volta a insistir na sua música favorita para a senha de início da Revolução de Abril...
Mas, essa canção, era impossível tocá-la! Bastava que alguém, nos estúdios, andasse com tal disco nas mãos para ser imediatamente preso (havia sempre, nos estúdios, um elemento da polícia política...); então, por causa de um recente acontecimento cultural no qual se tinha interpretado a ‘Grândola, vila morena’, sugeriram-lhe que, essa, talvez, não desse muito nas vistas...
E assim foi!

A canção 'E depois do adeus' seria o sinal do posto de Comando e 'Grândola, vila morena' seria a senha para todo o país!...

(mas a canção que, essa sim, tinha sido a única escolha para abrir as portas à madrugada dos capitães de Abril, essa, está aí, no som, do lado direito...)

22 de Abril de 2008

de que...

Discutiam à porta do liceu
dois caloiros, um caso muito a sério,
com vários ‘dizes tu’ e ‘direi eu’
sem acharem a chave para o mistério...

Deve dizer-se: ’dêem-me de beber’,
um deles afirmava. ‘Não é tal,
nesse sentido o de não pode ser;
o que é muito mais gramatical
!

É: dêem-me que beber’, disse o segundo.
A questão azedou-se, de maneira
que o insulto irrompia, furibundo,
pois bem sabem que asneira puxa asneira...

Felizmente, passou naquele instante,
um douto, dos antigos, e com jeito
a discussão não foi mais adiante,
porque ele pôs-lhe fim bem a preceito:

‘Nem um nem outro tem razão. Vocês,
se querem falar bem, devem dizer,
não esse arrevesado português,
mas deste modo: ‘Levem-me a beber’
!

Ficaram convencidos os pequenos,
sem terem percebido que o lente
(sem peias e nada benevolente)
lhes chamara bestas... pelo menos!

17 de Abril de 2008

os tempos da Lua

É bem verdade que, já no dizer antigo se apregoava em Abril águas mil, coadas por um mandil. Mesmo que os dias de hoje proporcionem muita controvérsia sobre esta coisa dos humores do tempo durante o ano, boa gente há ainda que olha a Lua nos seus afazeres do campo. Diz-se até se queres boa horta, semeia-a no crescendo da Lua...
Pois a propósito disso, há duzentos anos atrás o boticário Roberto da Silva Pinto, escrevia no seu Prognóstico Lunário para 1808:

‘Se quando apparecer a Lua depois da Nova, lhe virmos todo o circulo da parte de Levante, he signal de que em toda aquella Lua haverá bom tempo; e pelo contrario se não a virmos senão pela parte alumiada, e com as pontas fuminadas, haverá mudanças no tempo.
Se a primeira vez que a Lua apparecer trouxer a ponta de cima negra e o mais branco, denota que no Crescente della choverá, e no demais curso da Lua fará bom tempo. E se a ponta de baixo for negra, e no demais for branca, mostra bom tempo no enchente, e chuva no Minguante. E se as pontas ambas forem brancas, e no meio negro, mostra que no principio, e fim da Lua, haverá bom tempo; mas no enchente choverá.
Em cada um dos dias do anno se virmos à noite Lua de côr branca e o tempo quieto, denota bom tempo no outro dia; e se vier amarella denota agoa, se vermelha vento; e tomando de duas cores, assim como amarella, e vermelha, denota agoa, e vento; e se branca, e amarella, agoa sem vento; e se branca, e vermelha, Sol com vento.
Quando o circulo em redor da Lua for negro denota chuva até ao terceiro dia.
Se o Sol ao sahir vir muito vermelho, denota vento, e trovões até ao terceiro dia, e logo sol, e calor.
Se o Sol ao sahir vier com huns raios muito compridos, que parece que chegão aos olhos, denota chuva no mesmo dia.
Se ao pôr do Sol ficar a parte do Poente vermelha, denota bom tempo no outro dia; e se ficar negra, e com névoas, o tempo será ao contrário.’

Pelo menos, assim era tido como certo!

15 de Abril de 2008

sangria desatada...

Sangria desatada diz-se de qualquer coisa que requer uma solução ou realização imediata.
Esta locução, julga-se, teve origem nas guerras, onde se verificava a necessidade de cautelas acrescidas a ter com os soldados sangrados. É que, se por qualquer motivo, se desprendesse a atadura posta sobre as feridas, a morte sobreviria inevitavelmente se não lhe acudissem a tempo, visto dar-se uma perda se sangue fatal.
Daí dizer-se, a propósito geralmente de ninharias que não merecem pressa nem zelo deixa lá, que isso não é nenhuma sangria desatada...

11 de Abril de 2008

publicidades...


(prospecto que Manuel Ferreira, de Vila Verde, mandou imprimir e distribuir, em 1902, publicado mais tarde nos Cadernos Mensais de Estatística e Informação do Vinho do Porto, em Agosto de 1944)
..........Manuel Ferreira, srurgião, rigedor e comerciante e agente de interros. Respeitosamente informa as senhoras e cavalheiros que tira dentes sem esperar um minuto apelica cataplasmas e salapismos a baixo preço e vixas a 20 réis cada garantidas. Vende pelumas, cordas, corta calos, joanetes aços partidos tusquia burros uma vez por mez e trata das unhas ao ano. Amola facas e tesoiras, apitos a 10 réis castiçais e fregideiras e outros instramentos musicais e preços muito reduzidos. Ensina gramatica e discurços de maneiras finas acim como cathecysmo e cretographia, canto e danças, jogos de sucieade e bordados. Tenho perfumes de todas as calidades.
Como os tempos vão maus, peço licença para dizer que comessei tambem a vender galinhas, lans, porcos e outra criação. Camisolas, lenssos, ratueiras, enchadas, pás, pregos, tejolos, carnes, chourissos e outras ferramentas de jardim e lavoira, cigarros, pitrol, aguardente e outros matriais inflamaveis.
Ortalaiças, frutas, lavatorios, pedras damolar, sementes e loiças e menteiga de vacca e porco. Tenho um grande curtimento de tapetes, cerveja velas e phosphoros e outras conservas como tintas, sabão, vinagre, compro e vendo trapo e ferros velhos, chumbo e latão. Ovos frescos, meus, paçaros de canto como mochos, jumentos, piruns e grilos e deposito de vinhos da minha lavra. Tualhas, cobertores e todas as qualidades de roupas.
Ensino jiographia, aritemetica, jimnastica e outras chinesices.

7 de Abril de 2008

Diógenes e a Dialéctica

A propósito dos seus conceitos filosóficos, conta-se amiúde que, vestido de trapos e de lanterna na mão, deambulava pela cidade à procura de um verdadeiro homem. Ou, quando Alexandre da Macedónia o interpelou, na rua, perguntando-lhe o que mais desejava; como Alexandre lhe tapasse o sol, respondeu-lhe não me tires o que não me podes dar.
Há, porém, uma outra história pouco conhecida...
Um dia, numa das ruas da cidade, um homem armado com um enorme pau corria, em fúria desordenada sobre outro, a gritar:
- Agarra! Agarra!...
Diógenes, que por acaso se encontrava no caminho, desviou-se para que o fugitivo melhor corresse. Furioso, o homem do varapau, increpou-o:
- Você é doido?!... Por que não o agarrou?! É um assassino!
- Um assassino? - volveu-lhe o filósofo - E o que é um assassino?...
- Assassino é um homem que mata...

- Um magarefe?!...
- Não se faça de tolo! Assassino é um homem que mata outro homem!
- Um soldado...
- Não!, claro que não! Um homem que mata outro, mas em tempo de paz!
- Ah!, um carrasco...
- Mau! É néscio?!... Um homem que mata outro na sua própria casa...
- Ah!, então já sei: médico!
Por fim o homem compreendeu a inutilidade de prolongar a discussão, soltou um praga e foi, novamente, em perseguição daquele a quem chamava assassino...