29 de Junho de 2009

a origem de Lousã

A Lousã (entenda-se todo o seu concelho, quase todo em plena serra do Açor) deve a sua designação, segundo os Velhos Livros de Linhagem de Joseph Piel, a Lausus, nome do proprietário da vila, quinta ou herdade que, na época romana, terá estado na origem da povoação principal nas cercanias da serra do Açor. Lausus teria sugerido terra Lausana ou Lausã, que, com o tempo, passou a Lousã. Antes do século XV, Lousã aparece, em vários documentos, escrita de formas diferentes: Lousam (1160), Lauzana (1220), Louzaa (1258), Lousaã (1343), Lousãa (1404) e Lousaa (1428). Até ao século XX, além da actual grafia, também se adoptou Louzan e Louzã -o emprego da letra z explica-se por haver quem defendesse que o termo Lousã se devia às lousas, fornecidas pelo vasto xisto da região, que se grafava, então, com a letra z.

A tradição, todavia, remete a fundação da terra e a origem do seu nome para o rei Arunce, contemporâneo de Sertório, que tinha a sua corte em Conímbriga, donde se viu forçado a fugir, com a sua filha Peralta e restante família e outros seguidores, perante um ataque de fortes e aguerridos inimigos, que saquearam a cidade e as suas gentes. O rei Arunce, conta ainda a mesma lenda, registada por Leitão de Andrade, refugiou-se, então, pelos territórios de Sertório, pouco povoados mas muito florestados, até se acolher num castelo que havia construído no mais escondido da serra, em um sítio quase feito uma ilha, cercado de uma ribeira muito fresca, a qual também como o dito castelo se chamava Arunce (hoje ribeira ou rio Arunce, o que cerceia as funduras de Piódão). À volta do castelo, que acabaria, mais tarde, conquistado pelos árabes, surgiu a vila de Arunce, ou Arouce, também ela tomada pelos mesmos árabes que dominaram o castelo, ao qual passaram a chamar Alaçan -mais tarde, os cristãos pronunciariam Alouçam. A vila, seria, entretanto, transferida para um local próximo dos campos de agricultura, dando origem à actual Lousã que, com o tempo, resultou de Alaçan, depois Alouçam e que, derivando para Lousam, acabaria, finalmente, na actual denominação.


(Quem vê o açor voar vê serenidade no ar)

19 de Junho de 2009

S. João até S. Pedro...

Longe vai o tempo em que o Presidente da República, então António José de Almeida, por causa dos sarilhos da Revolução de Outubro, sempre se inquietava com rumores vindos do norte. Ficou célebre o seu cuidado transmitido ao Chefe do Governo: 'Veja lá como andam as coisas pelo Porto, não vá haver por aí alguma bernarda'!...

Hoje, tudo é diferente: até o rio, rio antes indomável e imprevisto, hoje quase parece riacho de águas mansas, onde toda a canalha se espolinha e brinca... Enfim!...

Isto, a propósito do S. João (sobre quem já tinha escrito, mas que me afiançaram ‘nunca é demais’...) que, hoje, não tem nada a ver com as suas épocas mais áureas que, a meu ver, se findaram pouco depois da dita Revolução dos Cravos...

Pois então, na primeira metade do século passado, esquecidas já as festanças da entrada do ano, do Carnaval e da Páscoa, isto ainda aos rigores do Inverno, a desforra chega com o Verão, no mês de Junho. O Santo António tem apenas os seus nichos, nas igrejas, cheios de jarras com flores e lá se contenta com isso, porque o povo do Porto não lhe dá mais nada. Às vezes, por causa de um jeito que o santo dá a alguma promessa mais aflita, põem-lhe umas moeditas de prata na bandeja. Tirando isso, flores e velas que o Santo, na sua qualidade de lisboeta, não deixa de ser um interesseiro...

O S. João, alto lá, isso sim, aí é que todas as ruas do Porto se transformam em cantares, fogueiras, cascatas, fogo-de-artifício, iluminações!...

A noite do Santo é aquela em que as gentes têm saudades de todas as horas que vão fugindo, a escuta de um cismar deleitoso nas trovas das raparigas ao povo, quando se juntam nos quintais ou à porta das casas, sentadas ao pé das fogueiras com os seus conversados ao lado, folgando e rindo com as malícias as mais das vezes inofensivas...

As moças deitam sortes, bilhetinhos enrolados contendo vários nomes de rapazes: o bilhetinho que, ao cair do sol, aparecer desenrolado no copo de água onde os mergulharam, esse é o que dirá o nome do futuro noivo. Há quem lance um ovo dentro do copo, que ao romper da manhã terá sempre uma forma profética e significativa... E outros, muitos, sortilégios do Santo.
(que, antes, eram do solstício, que é a origem de toda esta festança...)

Pelas bandas do Bonfim, nesse tempo pejado de indústria de tecelagem, ouviam-se as vozes esganiçadas das raparigas ao tear:

S. João adormeceu

nas escadas do colégio;

a Justiça deu com ele

S. João tem privilégio

De Cedofeita a Paranhos, de Campanhã à Ribeira, por toda a parte o clarão das fogueiras, o estrelejar dos foguetes ou das bichinhas dos busca-pés. Cascatas e alguma filarmónica num ou outro coreto improvisado, toca as modinhas da altura à conta de subscrição feita dos moradores que se organizaram para dar mais brilho ao bairro ou à rua.

Nesses tempos o maior arraial era o da Lapa. A alameda, junto à igreja, era o local aprazível para os comes e bebes. No adro da igreja abancavam as famílias burguesas; a banda do Regimento de Infantaria fazia as delícias de todos, e o S. João, pintado numa enorme tela de linho transparente, preso à fachada do templo, lançava um sorriso luminoso sobre a multidão, um olhar gaiato e... alguns pingos de cera, que sempre iam caindo das tigelinhas, profusamente espalhadas nos contornos da igreja.

E a festança era tamanha que até chegava aos mortos. Nesse dia, quem tinha parentes no cemitério da Lapa (onde está sepultado Camilo Castelo Branco), mandava-lhe de presente umas flores para a sepultura e uma Ave-maria para a eternidade. Lembravam-se deles e chorava-os e, depois, volta a cantar na festa...

Outra das (perdidas) tradições eram as pequenas cascatas de rua, de degrau, passeio ou esquina...

As cascatas do S. João perdem-se na própria história dos festejos são-joaninos.

Tradição própria da criançada que, dessa forma, obtinha dois gandas lucros na altura dos festejos: passar o dia na rua e ganhar uns tostões para comprar cromos de jogadores, o pião que viu na drogaria ou a boneca de cartão que está na loja das miudezas...

A importância da cascata começava pelo lugar onde ia ser instalada: se não fosse à porta de casa (quase sempre tido como um sítio 'foleiro'...), era necessária a sempre difícil autorização, normalmente da mãe já que o pai passava o dia todo na fábrica ou na estiva. Resolvida que fosse a questão (o que não era fácil já que se discutia 'trabalho' na rua, para as horas de maior movimento desde a antevéspera do S. João até ao dia de S. Pedro...), ia-se buscar a caixa de sapatos onde estavam guardados os mascatos (pequenos e toscos bonecos de barro), do quintal de casa ou da vizinha sempre se arranjava uns nacos de musgo e umas rancas verdes, uns bocados de papel de cartucho que o senhor J'aquim da mercearia deu depois de se lhe chagar a paciência e... ala que se faz tarde!
A cascata era montada sempre ao gosto (e às posses...) de cada um: não havia regras, nem tamanhos, nem feitios. Uns ficavam-se por um ou dois bonecos: ou porque não havia guita para mais ou, também, porque era sostra demais para ter trabalheira. Mas a maioria esmerava-se: era abancar, espalhar a saca da areia que se tinha trazido da praia uns dias antes, pôr o musgo a fazer carreirinha ou cercadura à areia e, pronto, agora era colocar a bonecada conforme desse ao gosto. Com as rancas verdes fazia-se um arquinho, por baixo o santinho no altar (que as mais das vezes era uma caixa de fósforos da cozinha, que era das grandes...) e, agora, é pegar noutro santinho numa mão, estender a outra a quem passar e...

...dê um tostãozinho pó S. João!...

...

S. Pedro, esse é de Miragaia, da outra banda do rio. Festejam-no os paroquianos, é uma festa dos da casa, e ele, na sua qualidade de barqueiro, dá-se bem à beira rio, o mesmo onde, seja de um ou outro lado, vão cair as lágrimas multicores do foguetório...

S. Pedro foi pescador

foi de santidade espanto:

o maior milagre foi

ser barqueiro e ser santo.

(seja lá por que santo for, ora pro nobis)

12 de Junho de 2009

os santos populares... mas isso era dantes!

Os portugueses são todos uns bem-dispostos, diziam os franceses referindo-se à tradicional bonomia do povo português. Na verdade, as classes pobres procuram nas diversões o esquecimento das suas necessidades. De quase todas as casas sai gente que, em folguedos simples, vai às romarias encontrar lenitivo para as suas contrariedades.

Sempre foi assim. Os santos populares festejam-se com ingénuo paganismo, em Lisboa na véspera e no dia de Santo António, no Porto na véspera e dia de S. João e sejam estes ou, ainda, S. Pedro, um pouco por todo o país o mesmo se repete há tempos já esquecidos...

O portuguesíssimo Santo António, nascido em Lisboa, pouco mais de 50 anos depois de o rei Conquistador a ter usurpado aos mouros, é entronizado nas mil igrejas de Portugal, nas casas, nos corações e nas preces de muitos e muitos milhares de lusos que ao simpático taumaturgo oferecem os seus pedidos e as suas ilusões.

Fiquemos, pois, naturalmente, só por Lisboa (que do Porto já se escreveu!).

Já no século XV, ali para os lados do Loreto, existia uma ermida de Santo António onde as meninas casadoiras iam solicitar ao bondoso santo a satisfação plena dos seus desejos. Durante a dominação filipina -e bastantes anos seguintes- uma procissão chamada Ferrolho, punha em alvoroço a turbulenta Mouraria de então. Saía de noite, de Santo António da Sé e terminava na Penha da França. A rapaziada que acompanhava o cortejo religioso entretinha-se a bater no ferrolho de todas as portas. Daí o nome pitoresco da procissão, que só veio a acabar na segunda metade do século XIX.

São muitas, tantas, as curiosas histórias de homenagens que o povo, e a nobreza também, tributavam aos santos populares, durante o mês de Junho...

Conta-se que com apenas 15 anos estreou-se numa tourada o garboso fidalgo D. João de Meneses, na mesma onde toureou o Conde de Vimioso, por quem palpitavam muitos corações femininos. Até um rapaz, de apelido Cabral, inventor da pega de cernelha, fez prodígios de valentia. Diz a história que, nessa corrida, o Vimioso quebrou sete rojões e a Severa ofereceu-lhe uma coroa de alhos! Teria sido verdade? Eduardo Noronha afiança a história e diz que, num valado, depois de um lauto jantar, o fidalgo e a musa do fado levaram a noite inteira a tocar e a cantar.

Mas, o centro de todos os festejos era o mercado da Praça da Figueira. Nos anos de 1880, em nada se assemelhava àquela que, depois, o camartelo municipal destruiu para substituir pelo então chamado Chão de Loureiro. Escrevia-se a propósito ‘uns portões pífios e inestéticos a taparem a entrada e, dentro, uns enormes chapéus-de-sol a cobrirem as hortaliças e a criação’. Uma gravura da época, publicada na revista Ocidente, mostra como ele era diverso do mercado que havia, mais tarde, de se tornar bem conhecido com os seus quatro torreões armados...

Mas, voltando ao tempo e aos festejos populares: um coreto, meio improvisado no meio do mercado, sanfonava a Alma de Diós, música que avassalava multidões. Balões e grinaldas por todas as traves altas do mercado. Apitos, gritos, cornetas de barro, uma algazarra de endoidecer e todos porfiavam em berrar cada vez mais e mais, e tudo em louvor de Santo António, S. João e São Pedro, os santinhos do povo.

O resto era arraial nocturno, com as pipas do saboroso carrascão, os pimentos a embrulharem as sardinhas e a boroa e os pequenos pires de arroz-doce a tentarem os gulosos mais apressados. A certa altura, à conta de uma musicata mais a propósito os pares enlaçavam-se, criadas de servir com a soldadesca e costureiras com operários...

Não se pense que, nesses tempos era só coisa de pé rapado, não! Nos finais do século XIX, em vésperas de Santo António, à tardinha, a rainha D. Maria Pia, descia do seu palácio até à Praça da Figueira. Quando a esposa do rei D. Luís se apeava da sua carruagem para entrar no mercado, a curiosidade era enorme: a realeza, descia à rua e vinha democratizar-se no convívio do povo. Três ou quatro camareiras acompanhavam a soberana, distribuíam-se sorrisos e acenavam-se lencinhos de seda e cambraia fina. A rainha comprava um manjerico, divertia-se com as chamadas quadras de pé quebrado e o povo envaidecia-se de ter a sua rainha ao pé... Lindo de ver!

Nesse tempo, nessa velha Lisboa, os mais concorridos e populares arraiais de Junho faziam-se na antiga Praça da Alegria, por essa altura completamente ampla, sem lago nem jardim. Ao fundo armava-se uma capela de madeira, que se desarmava depois da noite de S. Pedro. Estava na moda o fogo-de-artifício, mas como o espaço do jardim era pequeno, queimava-se em baixo, em frente ao Passeio Público.

Mas o mês de Junho lisboeta tinha, além dos três santinhos da sua devoção, um outro a quem também não lhe regateavam festejos: S. Jorge a quem faziam uma exuberante procissão, por alturas do Corpo de Deus, mas que há mais de um século deixou de existir! Tantas inclemências passou o desditoso santo: tiraram-lhe os diamantes do seu aparatoso chapéu de gala e, durante a invasão francesa até foi vítima de vários desacatos. Mas, apesar de tudo, as ruas da baixa até ao Castelo, enchiam-se de uma multidão gulosa daquele espectáculo com certo sabor medievo: os fatos garridos dos pretinhos tocando tambores e pífaros; um pajem montado num cavalo ajaezado a primor; os estribeiros da Casa Real, levando à rédea os corcéis empenachados e, finalmente, o célebre Homem de Ferro, um honrado sapateiro a quem davam duas libras para se meter na armadura. O famoso guerreiro era positivamente atarraxado a um luzido cavalo. O santo padroeiro das batalhas portuguesas teria honras de general e as tropas apresentar-lhe-iam armas.

Crê-se que a última vez que S. Jorge se passeou na cidade foi em 1910, o ano da República. Calaram-se, assim, os charameleiros e os pobres pretinhos que ganhavam cinco réis por dia. S. Jorge deixou de fazer as suas reverências ao povo e até a Igreja o tirou do altar. Enquanto os três santos populares têm os seus fiéis de todo o ano, mesmo que lhe mudem os festejos, os louvores, as preces ou os folguedos, o valoroso guerreiro que a Ala dos Namorados evocou nos campos de Aljubarrota, vive abandonado pelos portugueses. Arranjaram outro santo, foi o que foi! Tudo vai mudando...
No próximo ano celebra-se o cinquentenário da morte de António Correia de Olivieira que dizia liricamente, em inspirada quadra:

Fora a vida um mês de Junho,
bem se levava a contento;

São Pedro abria-nos o céu,
Santo António o casamento.


(a cada santo sua vela)